51 ANOS COMO PROFESSOR DE FUTEBOL


     Aos 74 anos de idade, o professor José Teixeira continua como referência no futebol, sendo o mais antigo profissional da área em atividade.

     O professor José de Souza Teixeira é um dos poucos preparadores físicos e técnicos desportivos de futebol cuja formação não pode ser contestada: seus números de registro no Conselho Nacional de Desportos estão lá, com data de 1961, sob números 3981 (preparador físico) e 184 (técnico de futebol). Nenhum profissional em atividade possue esses dois registros há tanto tempo.

     Mas pouca gente também tem um curriculu profissional como José Teixeira, que soma mais de meio século em atividade no futebol profissional, carreira iniciada no São Paulo F.C., onde trabalhou de 1958 a 1964, como preparador físico e muitas vezes como auxiliar técnico. A partir do Tricolor Paulista, coleciona grandes trabalhos como preparador, treinador e supervisor em grandes clubes como Corinthians (1965/71, e depois em 1977 quando participou ao lado de Osvaldo Brandão, da conquista do título após 22 anos), E.C.Bahia (1972), Millonários da Colômbia, Guarani de Campinas, Universitário do Peru, Al Nasser da Arábia Saudita, Al Shabad dos Emirados Árabes, Barretos, Ituano, Taubaté, Tókio Gás do Japão, Coritiba, Santos, Novorizontino, Bragantino e Portuguesa.

    Neste período trabalhou em praticamente todas as categorias da Seleção Brasileira, tendo sido um dos grandes responsáveis pelo grande avanço da Seleção Brasileira de Novos, com conquista de vários títulos. Participou também da Seleção Paulista, em várias etapas e categorias, e foi consultor da Federação Paulista de Futebol.

     O grande êxito de sua carreira, que está em pleno andamento com novos projetos e consultorias para vários clubes de São Paulo e do Brasil, pode ser constatado por esses números: 19 clubes (em apenas três ficou menos de um ano), 11 seleções, 53 viagens ao Exterior por 71 países, 362 jogos internacionais e 90 jogos por seleções.

     José Teixeira é autor do livro “A História de um Tabu que Durou 22 Anos” (2005), em que narra a saga do Corinthians que ficou mais de duas décadas sem ganhar um Campeonato Paulista, e já tem pronto o livro “50 Anos por Dentro do Futebol”, com lançamento previsto para breve.

     Na quinta-feira (5/11), o repórter Moacyr Custódio, acompanhado de Elias Teixeira, presidente do Sindicato Nacional dos Treinadores Esportivos, conversou com o professor em uma mesa do Shopping Santa Cruz, em São Paulo:

     SPCenter – Com 51 anos de carreira, o sr. Passou por várias épocas do futebol. Como analisa o futebol de ontem e de hoje?

     Prof. José Teixeira – O que você fazia naquele tempo? Você treinava para jogar para ganhar a partida. Hoje, a gente treina para que? Para jogar e ganhar a partida.  Só que o futebol mudou. Está mais rápido, porque naquele tempo não existia uma preparação física como existe hoje. Quando comecei, não tinha preparador físico, não tinha fisiologista, treinador de goleiros..cozinheira, nutricionista, não tinha nada...tinha treinador, médico, massagista e roupeiro. E os jogadores se machucavam igual e se recuperavam igual. Essa diferença da velocidade de jogo que diminui o espaço, que diminui o espaço para jogar. Ele não pode continuar treinando como treinava antes...tem que treinar hoje com uma diminuição de tempo de reação. Não é ser mais veloz, ele tem que pensar primeiro que o adversário, sair primeiro que o adversário e chegar na bola primeiro que o adversário. Isso eu comecei a usar, fiz isso em 1962, com o Procópio (zagueiro que jogou no São Paulo e depois no Cruzeiro). Ele era o jogador mais veloz no elenco do São Paulo, vinha da linha de fundo e chegava quinze metros na frente do segundo. Só que, quando a gente tomava um gol, o jornal escrevia assim: “pela lentidão do Procópio o São Paulo tomou um gol”. Não que ele era lento..ele era veloz mas não tinha arranque. Então, se você tiver um jogador que pensa rápido, sai primeiro e chega primeiro na bola, ele não é veloz? Claro que é! Então o conceito de velocidade mudou, o conceito de resistência mudou, o conceito de uma forma geral mudou. Você tem que estar preparado para essas mudanças, principalmente, mudando a ciência como base de trabalho.

    SPCenter – Em sua carreira o sr. ficou menos de um ano em apenas três clubes entre os 19 clubes onde trabalhou. Como vê o rodízio de comissões técnicas que ocorre atualmente, em que clubes chegam a trocar de comando duas, três vezes ou mais durante uma temporada?

    Prof. José Teixeira – Os dirigentes ainda não entenderam que a continuidade do trabalho é uma segurança maior. Essa é a minha forma de trabalhar. Para trazer um jogador, eu tenho que pensar no amanhã. Se amanhã eu estiver na primeira divisão, vou jogar partidas internacionais, daqui a dois, três anos, eles vão estar na seleção?...Se o dirigente falar que ele joga na segunda divisão e que na primeira divisão e na seleção ele não vai jogar, então este jogador não serve. Se você não jogar com a idéia de melhorar, ele não serve para amanhã e não serve para hoje. Se não serve para amanhã, vai ter que trocar o jogador e todas as vezes que recomeça é um passo atrás. Se fizer isso, você resolve grande parte dos problemas. Esta foi a minha forma de agir durante todos esses anos.

    SPCenter – O Campeonato Brasileiro deste ano está nivelado por baixo, com cinco ou seis times com chances de ser campeão, atingindo menos de 60% dos pontos possíveis. É uma decadência técnica ou reflexo da falta de planejamento?

    Prof. José Teixeira – Em 1956, um professor de futebol me chamou e perguntou: ‘porquê você não faz um mapeamento do futebol?’...Era o professor Mário Miranda Rosa, da minha escola. Ele, então, me disse que no basquetebol americano existia um mapeamento, em que se sabe quem arremeçou, de onde arremeçou, quantos rebotes pegou..tudo sob controle...e perguntou ‘porque você não faz?’. Aí, eu comecei a aplicar isso no futebol. Número de chutes, certo ou errado, a hora em que ele chutou...isso em 1956...hoje, eu controlo os campeonatos inglês, espanhol, alemão, francês, italiano, português, argentino e Campeonato Paulista, Campeonato Brasileiro A e B e Copa do Mundo...Para que serve isso?  Para você saber quanto por cento esses clubes necessitaram para ser campeão. A conclusão é a seguinte: quem conseguir 70%  dos pontos disputados é campeão ou disputa o título. Então eu pergunto? Se um jogador treinar 30, 40 por hora, ele vai conseguir jogar 70 por hora? Claro que não!. Então ele vai ter que treinar no mínimo 70%. Se ele pegar vinte bolas e errar dez, o que ele errou? Passe, domínio, cabeceio, velocidade, impulsão...se tivermos todos esses controles, podemos fazer com que esse jogador possa render mais , porquê ele não está competindo com os demais companheiros..está competindo com ele mesmo...porquê tem jogador que corre mais que ele, passa mais que ele, mas ele tem que melhorar a sua eficiência. Essa foi a minha forma de agir durante todos esses anos.

    SPCenter – Nas décadas de 60 e 70 os times jogavam  no esquema 4-2-4, sem muitas invenções táticas, e existiam grandes equipes com meio-campos memoráveis como Zito e Mengálvio, Clodoaldo e Lima, Dudu e Ademir da Guia, Edson e Gerson, Piazza e Dirceu Lopes etc. Essas equipes foram vitoriosas, faziam muitos gols e o futebol era mais bonito. O que o sr. acha desses esquemas de hoje, com quatro no meio, três zagueiros, um atacante?

    Prof. José Teixeira – A condição física tornou o jogador mais rápido. Antes ele não voltava para ajudar. O Zagallo é que voltava um pouco, fazendo o outro homem do meio campo,o Telê também voltava quando jogava de ponta direita...mas normalmente eram pontas, centroavantes e meias...eles não voltavam...em compensação os laterais também não tinham obrigação de sair..tanto que, certa vez, o Nilton Santos foi para o ataque e fez um gol pela seleção e aquilo foi um absurdo. Como que ele fez aquilo? Ele foi para o ataque, fechou, foi lá e fez o gol..só isso. O problema é que a condição física faz com que o jogador possa voltar. O que os treinadores fazem hoje? Os jogadores voltam, lutam pela posse da bola e chegam rápidos novamente no ataque. A condição física fez com que a tática fosse modificada.

     SPCenter – Em 2005, o treinador Israel de Jesus lançou um esquema chamado Roleta, que pregava uma revolução no futebol, com jogadores sem posições fixas...foi muito criticado mais continua até hoje afirmando que o futebol passou a usar esta tática com outros grandes treinadores, apenas não adotam o nome. O que o sr. pensa desta forma de jogar?

   Prof. José Teixeira – A Holanda adotou este esquema na Copa do Mundo da Alemanha, a chamada “Laranja Mecânica”...mas não era todo mundo que mudava de posição..era apenas na frente. Veja bem: se você fosse zagueiro, preferia marcar apenas o número 9 ou ter que marcar também o 10, o 8 e o 11?..claro que é mais difícil. Só que ele - Israel de Jesus - utilizou a roleta para chamar a atenção. O Vadão também utilizou um esquema parecido, no Mogi-Mirim, de muita movimentação, com o Leto, Rivaldo..ele fez uma campanha linda. Então, quando você acrescenta alguma coisa no esquema de jogo, tem que acrescentar de uma forma que não deixe dúvidas. Se deixar dúvidas está fadado a não ter êxito. Um pesquisador americano disse que, sempre que você aparece com uma idéia utópica, no mínimo 50% das pessoas aparecem para dizer que não vai dar certo, que você é louco. Apenas uns 3% se perguntam: porquê nós não pensamos nisso... e se metade dessas pessoas – 3% - ficar à favor você já tem meio caminho andado para fazer sucesso. O Israel de Jesus fez isso na Matonense...que não dava respaldo..então, quando você for fazer alguma coisa diferente...tem que ver quais jogadores vão fazer, em qual clube e qual ambiente vai receber isso.

    SPCenter -  O sr. também é considerado como inovador no futebol. Teve alguma experiência diferente em sua carreira que se destacou?

    Prof. José Teixeira – No Corinthians, em 1977, eu achei que nós tínhamos que dispensar oito jogadores campeões daquele ano, depois de 22 anos sem vencer o Campeonato Paulista. Era complicado. Mas eu dispensei. O argumento foi tão bem feito que todo mundo comprou a briga. Porque foi você vai dispensar o Tobias, o Geraldão, o Russo...porquê eu tirei tudo que eles tinham...eles vão ter que ficar três meses descansando, treinando, para voltar a render. Eu posso esperar? Não! Como eu já estava treinando outro grupo, que tinha Mauro, 19 anos, Solito, 18 anos, Wagner Basílio, 18 anos, trouxe o Birô-Biro, com 17 anos, Sócrates, com 23...eu montei um time novo. Só que eu fiquei três meses apanhando, mas a Diretoria me agüentou. Porque eles compraram a minha idéia. Se eles não compram, esquece. Então, quando nós pensamos em fazer alguma coisa você tem que convencer as pessoas a lhe darem retaguarda.
    SPCenter – Como o sr. vê a Seleção Brasileira com o técnico Dunga, que nunca havia dirigido um clube antes?

    Prof. José Teixeira – Primeiro, o Dunga não deveria ter ido, porque seleção não é lugar para experiência. Há um ano atrás, ele era unanimidade que não servia. Está servindo porquê os resultados surgiram...se os resultados não saírem, esquece. Infelizmente, no futebol, não vale o trabalho, vale o resultado. Você tem que conciliar o que vai planejar e executar com os resultados. Eu acho que, como ele chegou neste ponto, o que todos nós agora temos que fazer? Eu fui contra, só que depois que ele está lá  torci para a seleção, porquê não quero que a seleção vá mal só por causa do Dunga estar lá. Agora, se ele está lá, se deu certo, eles não vão mudar e já que não vai mudar que Deus ajude e que dê tudo certo e que o Brasil possa fazer uma bela figura na próxima Copa do Mundo.

    SPCenter –Jogador derruba técnico?

    Prof. José Teixeira – Ele até pode derrubar, mas de uma forma clara, responsável, dizendo ao treinador que não concorda ele. Você já imaginou trabalhando em algum lugar onde o treinador não lhe dá moral? Onde o diretor da empresa não lhe dá moral? Isso é revoltante, você faz porquê é obrigado. Eu já trabalhei com muitos treinadores, mas vou citar só um: Osvaldo Brandão. Ele ganhou títulos em todos os lugares onde passou: foi campeão no Palmeiras, no Corinthians, no São Paulo..então, teoricamente, ele era um super treinador. Da mesma forma que ele tinha as suas virtudes, tinha as suas deficiências, só que as virtudes dele eram tão grandes que ele ‘matava’ o jogador fora de campo, se o jogador não se comportasse como homem. Só que ele também defendia aquele jogador fora de campo, que correspondia dentro de campo. Treinar é fácil, o difícil é comandar um grupo e tirar dele todo o potencial.

 Moacyr Custodio

 

 
 
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